O homem como centro da transformação urbana

Pedro Paulo Cordeiro é arquiteto e urbanista

 

 

 

 

 

 

Atualmente, vejo muitas pessoas falarem em sustentabilidade, em todas as áreas, inclusive referente ao urbanismo. O que torna uma área, bairro ou cidade sustentável são ações integradas baseadas nos campos econômico, social e ambiental, significando que esta tríade deve funcionar de maneira equilibrada. Quando pensadas de maneira estratégica, proporcionam verdadeiras revoluções espaciais e modus vivendi, onde quem usufrui dos benefícios gerados são os seus habitantes e visitantes.

Em diversas cidades brasileiras as áreas portuárias foram sendo abandonadas paulatinamente pelo Poder Público, transformaram-se em guetos sujos, inseguros e desvalorizados. Diversas experiências exitosas reutilizaram estas, com um processo denominado de reconversão, ou seja, uma mudança completa do uso, onde podemos citar Puerto Madero, em Buenos Aires, como uma intervenção em grande escala e a Estação das Docas, na cidade de Belém do Pará, como média escala.  A mais nova experiência deste tipo de reconversão é o Porto Maravilha, na cidade do Rio de Janeiro, que se iniciou pela Praça Mauá, com o Museu do Amanhã e Museu do Futuro e entorno, passou pela Gamboa, com a inauguração do Aquário Marinho do Rio, agora chegando a região de Santo Cristo.

Em uma matéria do Jornal O Globo, publicada em novembro de 2016, retrata a descrição deste ambicioso projeto, como uma continuidade de ações transformadoras espaciais ocorridas nos últimos anos nesta cidade, onde Rua City Lab é considerada como um espaço criativo, transformador  e catalizador. Uma palavra que talvez defina esta nova intervenção, pode ser diversidade, afinal este espaço é uma mistura de galeria de arte, coworking, auditório e salas de aula, um grande laboratório de ações criativas urbanas, já com diversos eventos realizados, dentre tantos outros agendados. Tal espaço criativo propõe turbinar a Economia Criativa, gerando novas formas de usar, ou melhor, experimentar espacialmente novas relações.

O interessante deste processo é que não se trata de apenas em transformar os locais escolhidos, com obras ou impactantes edifícios atrativos de público, como o Museu do Amanhã ou o Aquário Marinho  e sim seu foco é exatamente nas pessoas, como torná-las parte de um processo e transformando-as em atores principais, afinal serão estas que utilizaram e potencializaram as ações determinadas. Afinal, não basta observar os espaços urbanos, tem que participar , interagir, se adonar, tornando estes cada vez mais humanizados e criativos. Neste mesmo caldeirão multicultural, surgiu o Art Rua, um festival de arte urbana que ocorre anualmente, atraindo diversos artistas nacionais e internacionais, ganhando inclusive um espaço de 7.500 metros quadrados para suas atividades.

Tem também o Embarca no Porto, uma parceria entre o Rua City Lab e Impact Hub, cujo projeto oferece um curso de formação em empreendedorismo aos pequenos empresários locais, hoje já contando com 43 pessoas, que aprimoram suas relações e negócios com o compartilhamento de informações entre os mesmos, significando uma enorme rede de contatos.

Em conjunto com este projeto socioeducativo e cultural, a área possuirá um parque urbano de aproximadamente 6.000 metros quadrados, cujo traçado, paisagismo e mobiliário urbano, foi desenvolvido por universitários vencedores do concurso promovido pelo Desafio de Design Odebrecht Braskem. Seus idealizadores relatam que este se trata de um espaço de encontro e contemplação das populações locais e visitantes, onde o nome deste será escolhido pela própria população, por meio de votação, o que reforça o pertencimento espacial.

Acoplado a Rua City Lab, ao Parque urbano, se encontram no mesmo complexo , 03 torres, sendo uma de salas comerciais, outra para grandes corporações e a terceira com dois hotéis de bandeiras internacionais, sendo este o primeiro empreendimento multiuso da região, com previsão de um público variando entre 15.000 a 20.000 pessoas no complexo, que impulsionara de certeza a criação de novos empreendimentos de comércios e serviços.

Torna-se necessário que entendamos que reconversão de áreas degradadas como esta, pautada de maneira sustentável, onde a Rua City Lab corresponde ao lado social, o Parque Urbano ao ambiental e o complexo de torres ao econômico respectivamente, formando assim a tríade da Sustentabilidade urbana. Há tempos observamos que este é o caminho, pois o fenômeno destas áreas  acontece em quase todas as cidades, principalmente naquelas que resolveram aderir a uma única função, seja esta, habitacional, comercial ou serviço, tornando-se necessário reverter essa lógica urbana danosa.

Entretanto jamais esquecer que em projetos criativos, inovadores e sustentáveis como este, a principal linha mestra é exatamente o Homem, este irá de sobremaneira saber usufruir ou renegar os espaços urbanos projetados.